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BNP Entrevista: André Pedralli

Ex-piloto de Kart e atualmente engenheiro de pista da W Series e da Fórmula Regional Europeia, André Pedralli realizou um bate-papo com o Batom Na Pista onde contou como foi o caminho trilhado para estar trabalhando hoje em ditas categorias do automobilismo, além de conceder detalhes do dia a dia da profissão.


Por: Mel Ribeiro, Setorista.


Foto: Reprodução/Portal Kart Motor

André, você poderia nos falar a respeito da sua vida pessoal e profissional para os leitores do BNP te conhecerem um pouco mais?


Eu comecei a me envolver com automobilismo desde pequeno, desde criança. Sempre gostei de carros, desde que me conheço por gente sempre fui apaixonado por carros e eu nasci em Maringá, no Paraná, e com cinco anos de idade, quase seis, minha família se mudou para Cascavel. Cascavel é uma cidade que tem uma tradição grande no automobilismo, pois possui autódromo e kartódromo e, se não me engano, acho que foi o primeiro autódromo asfaltado do interior do Brasil.


No meu caminho para a escola, eu passava em frente de um kart indoor que ficava no centro da cidade e também tinha o kartódromo a céu aberto que fica até hoje próximo ao lago municipal, então eram pontos pelos quais eu estava sempre passando e pedindo para o meu pai me levar. Quando eu tinha uns oito anos, oito anos e meio, ele me levou no kart indoor pela primeira vez e fiquei uns três meses indo ali - acho que devemos ter ido umas cinco ou seis vezes nesse tempo. Foi uma iniciativa minha, meu pai sempre gostou de automobilismo, mas quem teve a iniciativa de querer começar a se envolver fui diretamente eu, não tive influência nenhuma dele, mas sempre tive o apoio.


Isso foi em 2003, e em 2004 eu comecei a treinar no kartódromo a céu aberto, a participar das primeiras competições e só fui parar de uns anos para cá. Em 2009 conquistei um título brasileiro da categoria, sub-brasileiro nesse ano e em 2010, fui selecionado para a final da Seletiva Petrobrás 2010/11/12 - onde eles escolhiam os melhores de cada categoria e isso foi muito bom porque me colocou entre os doze melhores do Brasil naqueles três anos -, fui também campeão paulista na Shifter, disputei Copa do Brasil, terceiro colocado em Campeonatos Brasileiros, enfim... Sempre disputando as primeiras posições, algo que me deu uma visibilidade que até hoje se vou no paddock da Stock Car, da Porsche Cup, mesmo não correndo mais eu conheço quase todo mundo que está ali, principalmente os pilotos e eles me conhecem também porque corríamos juntos de igual para igual como por exemplo com Gabriel Casagrande, Nelsinho Piquet, etc. Em 2016 eu ainda estava fazendo competições de Kart, corri o Brasil inteiro, cheguei até a realizar uma outra participação fora do país, fiz F3 e F4 Sul-americana - nunca fiz o campeonato inteiro, fiz algumas etapas apenas porque sempre esbarrava na questão financeira -, então meu envolvimento com o automobilismo vem desde cedo.


Como piloto, tive escolinha de pilotagem de Kart também em Cascavel - isso na minha época de faculdade - e nesses cinco últimos anos que eu estava na faculdade, morando no Brasil, foram os anos que eu estive envolvido também com a escolinha. Automaticamente, esses anos de faculdade, escolinha de Kart, foram anos que eu fiz menos corridas. O dinheiro já era curto, eu realizava as corridas "com as próprias pernas", meu pai já não tinha condições de ficar colocando dinheiro como colocava antigamente então eu fazia uma que outra corrida com patrocínios aqui e outro ali, além de utilizar o que eu ganhava dando aulas na escolinha de Kart.


Foto: Reprodução/Velocidade Curitiba

Você deu uma "pausa" em sua carreira de piloto e passou a ser engenheiro. Como foi essa transição de uma profissão para a outra?


Hoje em dia eu estou "do outro lado da mureta" como sempre falo e a transição foi de forma gradual, digamos assim. Fiz faculdade de engenharia mecânica no Brasil por cinco anos e nesses cinco anos tive o meu envolvimento com o Kart porque meu último ano competindo de forma "grande" foi o ano anterior de entrar na faculdade. Então comecei a faculdade, continue fazendo algumas coisas só que bem menos em termos de corrida de Kart e comecei com a escolinha. Então eu continuei envolvido enquanto estudava e no fim da faculdade comecei a realizar alguns cursos extra-curriculares já focados em engenharia de carros de corrida porque eu pensava "ah, vou terminar a faculdade e vou fazer o que da vida? No que vou trabalhar para usar esse diploma, para justificar que eu gastei cinco anos numa faculdade?". Comecei a pesquisar sobre esse tema, já conhecia o pessoal que me mostrou o caminho de "faz esse curso aqui, tenta trabalhar ali naquele lugar" - que no caso acabou sendo a Porsche Carrera Cup do Brasil -, então tive algumas indicações que me tiraram as dúvidas que todo mundo tem no início de carreira. O Kart me deu acesso a muita gente que já estava no meio do automobilismo, então na minha migração do autódromo para o kartódromo claro, conheci pessoas novas, mas também acabei vendo muitas caras já conhecidas. Depois que eu comecei a trabalhar passei a conhecer mecânicos, engenheiros, mas antes só conhecia os pilotos. Então a transição aconteceu ainda no Brasil, na Porsche Carrera Cup, visto que no meu último ano de faculdade eu entrei no time e fiz parte por quase dois anos até me mudar para a Inglaterra.


Foto: André Pedralli


Atualmente você está morando na Inglaterra, trabalha na W Series e na Fórmula Regional, mas qual foi a maior dificuldade que enfrentou nesse caminho a nível profissional?


Então, a nível profissional na verdade acho que foi conseguir a primeira oportunidade. No início de 2019 a consegui com a W Series, vim para cá em setembro de 2018 para estudar no Master de Engenharia de Motorsport e nisso já comecei a mandar e-mails, já tinha alguns contatos de equipes aqui porque já tinha vindo para Inglaterra em 2017 também para fazer um curso e naquela época eu já tinha "mexido os pauzinhos" para conhecer algumas equipes, fazer algumas coisas... Pelo menos criar algum contato, trocar algum e-mail e por coincidência ou não, antes de vir para cá eu acionei vários contatos no Brasil e um deles foi o Rodrigo, proprietário da Hitech Brasil - equipe de F3. Rodrigo tinha trabalhado na Hitech inglesa, então obviamente conhecia o dono da Hitech daqui e enviou uma mensagem para ele explicando a situação de que tinha um amigo que estaria na Inglaterra e que ele gostaria de conhecer a equipe se fosse possível. Aí o dono falou "ok, beleza, pode vir", e com o Rodrigo fazendo o intermédio combinamos um dia, um horário e eu fui na Hitech inglesa. Visitei, trocamos uma ideia, nos conhecemos, mas enfim, nada demais.


Quando voltei em 2018, eu já estava morando aqui quando anunciaram a W Series e qual equipe que iria operar todos os carros? Hitech. Eu falei "bom, pode ser que aí esteja uma porta de entrada", então mandei um e-mail sem resposta. Virou o ano para 2019, enviei outro e-mail - dessa vez sendo mais específico - e nesse e-mail obtive resposta, uma resposta rápida até e tive, creio, um pouco de sorte porque claro, uma categoria nova, com uma equipe precisando de gente para trabalhar e talvez tenha tido influência também o fato do dono da equipe já ter me conhecido pessoalmente, apesar que fazia um ano e meio do nosso encontro - nem sabia se ele lembrava ou não -, mas eu mencionei "sou o André lá do Brasil, foi o Rodrigo que fez o intermédio da gente se conhecer ano passado" e expliquei para ele que estava morando na Inglaterra, expliquei a história e o que ajudou também foi que enviei meu currículo em anexo e eu já tinha experiência de pista na Porsche Carrera Cup. Então assim, digamos que foi difícil porque levou um tempo até isso acontecer, mas da forma que aconteceu eu não achei tão difícil. Talvez acho que eu tive "sorte", por falar de alguma maneira. Eu corri de Kart por 14 anos e porque eu me destacava no Kart as equipes de Fórmula 3 no Brasil entravam em contato comigo me chamando para correr, só que lógico, tinha que levar recursos, tinha que levar dinheiro e por conta disso eu fiz contato com as equipes de F3, eu conhecia os chefes das equipes. Por eu conhecer o chefe da equipe enviei mensagem para o Rodrigo, expliquei que estaria na Inglaterra, ele fez o intermédio... Então assim, não dá para dizer que foi uma sorte. Foi um combinado, uma ligação de muitas coisas que no final das contas eu falava com o Rodrigo da Hitech e com outras equipes de Fórmula 3 em 2010/11 e eu fui conseguir um emprego na Inglaterra em 2019, oriundo, de certa forma, desse contato que eu tive lá atrás. Profissionalmente falando acho que esse foi o primeiro desafio, conseguir a primeira oportunidade aqui fora e claro, ter que mostrar serviço, ter que entender rápido como as coisas funcionavam aqui, a questão do idioma no início sempre foi algo que "pegava" um pouco apesar de saber o idioma - estava aqui afinal para fazer um curso de pós-graduação -, mas quando você mora no Brasil não tem contato com o inglês todos os dias, não é a mesma coisa. Então você chega aqui e leva um tempo até começar a entender bem as pessoas, até conseguir se comunicar de uma forma mais eficiente e efetiva, enfim. Até o trabalho me ajudou muito a melhorar a minha didática no inglês, a falar, entender, escrever. Eu percebi um salto bem grande depois que comecei a trabalhar aqui. Depois como em qualquer ramo você vai criando contatos, vão surgindo oportunidades de trabalho através deles e foi exatamente o que aconteceu comigo.


Foto: André Pedralli

Agora falando um pouco mais desde o lado pessoal, o que você teve que "deixar para trás" para conseguir o seu sonho, aquilo que tanto almejava? Porque todo mundo vê a parte bonita, a parte legal que é viajar pelo mundo, conhecer pessoas novas, lugares incríveis, mas ninguém vê o que há por trás disso tudo. Então, o que você teve que "deixar" nesse caminho?


É bem isso que você falou, o pessoal vê só a parte boa, a parte bonita, mas não faz ideia do que foi chegar até aqui, do que está sendo, na verdade, essa permanência aqui. Na parte pessoal é lógico que você tem que abrir mão de praticamente tudo. Tudo que você fez, faz da sua vida, mesmo que você possa levar algumas coisas de forma remota, mas não é mais a mesma coisa. É como literalmente apertar o botão de "pausa" na sua vida, pegar um avião, descer do outro lado do mundo e apertar o botão do "play" numa outra vida. Muda do dia para a noite, da água para o vinho literalmente, então, tudo que você faz, os seus amigos, sua família, se tem namorada ou namorado, enfim, você acaba deixando todo mundo para trás - pelo menos esse foi o meu caso.


Em outros casos vejo que muita gente tem vontade de sair do Brasil, buscar coisas fora, mas as vezes já é casado, já tem família, então isso acaba sendo um empecilho porque é muito mais complicado vir com todo mundo junto, envolve muitas mais coisas, mas esse não foi o meu caso. Mas, mesmo assim, acabei deixando tudo que eu fazia e a vida mudou completamente.


Quando você chega aqui é outra cultura, outro idioma, outro clima, outra comida. Tem que aprender a viver no "ritmo" do país. O ritmo de trabalho muda, o ritmo de socializar muda, o ritmo até da hora de comer e dormir muda. Aqui é difícil você conseguir jantar depois das 21h. Agora no verão depois desse horário ainda está de dia, então são bem estranhas algumas coisas.


Pensa que em tudo que você faz da vida, você aperta o botão de "pausa", "stop" e muda completamente, começa a "tocar sua vida" do outro lado do mundo e o celular passa a ser o seu melhor amigo porque você fica muito tempo sozinho então a forma de se comunicar com as pessoas é por mensagem ou por ligações. Então você acaba tendo o celular, a Internet, como uma ferramenta que utiliza muito mais agora e é isso. Final de semana longe da família, vendo os amigos fazendo churrasco, fazendo festa, vendo a família reunida nos aniversários e você não está presente em nenhum desses momentos. Então acho que isso é o principal, mas quando você está no autódromo junto com a Fórmula 1 todo mundo fala "nossa, você está vivendo um sonho, eu queria estar aí também". Realmente é um sonho, mas eu não saio do Brasil na terça-feira, chego aqui na quarta, fico quinta, sexta, sábado e domingo na Fórmula 1 e depois estou voltando. Estou aqui há quatro anos, então acho que é isso que a maioria das pessoas não enxerga, mas faz parte.


Foto: André Pedralli


É um pouco como tudo nessa vida. Independente do que você fizer, independente do que você conquistar, todos irão ver apenas a parte legal, mas ninguém verá o quanto você se esforçou para chegar até ali. Voltando um pouco ao lado profissional, você trabalha na W Series, na Fórmula Regional, mas especificamente sobre a W Series - que é uma categoria feminina -: Quando ela foi criada, anunciada, muitas pessoas a criticaram dizendo que estavam separando/afastando ainda mais as mulheres ao invés de inseri-las no ambiente masculino do automobilismo. Vivendo o dia a dia da categoria, você acha que realmente aconteceu isso, essa separação? Ou acha que está sendo sim uma maneira de inseri-las ainda mais nesse meio?


Essa é uma pergunta bem interessante e claro, é uma categoria que chegou dividindo muitas opiniões - principalmente no começo. Eu acho que o propósito deles, na verdade, é dar oportunidades às pilotos mulheres porque se pensarmos no universo de todos os pilotos de Kart, automobilismo, enfim, claro, a grande maioria são homens, mas de todos eles - não sei o número ao certo -, mas vamos colocar a quantidade de pilotos que estão na Fórmula 1, que são 20, temos 20 pilotos que disputam a principal categoria do mundo. Se formos pegar uma competição de Kart, para ser um pouco mais fácil, onde tem mais gente competindo - às vezes uma competição de Kart atinge a marca de 500 inscritos - não sei exatamente a quantidade de meninas, mas vamos colocar 10 ou 15 no total de 500 pilotos.


A presença feminina no esporte aumentou bastante nos últimos tempos, na minha época não tinha 10/15 meninas em um campeonato brasileiro e eu vi também de longe - porque é algo mais recente - que em campeonatos regionais em Cascavel tem também uma categoria que se chama Batom, inclusive, que é só para as pilotos mulheres e acho que na verdade é para incentivar, nesse caso. Se as mulheres tem uma categoria exclusiva para elas, é melhor para inseri-las no esporte, porque aí terão níveis de pilotagem diferentes. Vai ter aquela que tem mais oportunidade de treinar - vai ser melhor provavelmente do que aquela que não tem muita oportunidade de treinar, que está ali mais para se divertir. Todas estão ali para se divertir, mas uma vai acabar se sobressaindo, ficando melhor que a outra. Aí essa que fica melhor que a outra, que será a campeã da categoria, ela pode facilmente migrar para a categoria não dos homens, mas que não seja exclusiva de mulher porque no automobilismo na verdade as categorias não são exclusivas de homem ou de mulher como nos outros esportes.


Então migrando para uma categoria "normal", digamos assim, terá chances de bater de igual para igual, bater de frente com qualquer piloto lá nessa categoria e a mesma coisa acontece na W Series. A W Series acho que chegou para dar oportunidade para esses talentos porque é uma categoria que não tem custo para entrar, então as meninas passam por um processo seletivo onde escolhem as que julgam serem as melhores e essas serão as que vão competir. Então elas entram na categoria e o que acontece é que eles dão a oportunidade para essas meninas de demonstrarem o que sabem fazer e também dão a oportunidade de desenvolver o seu talento, de treinar, de praticar, enfim, de se tornarem melhores pilotos, oferecendo um carro moderno de F3 nível regional. Além disso, elas correm só em circuitos muito bons. O primeiro ano foi junto com a DTM e o segundo e terceiro ano - a atual temporada - está sendo junto com a Fórmula 1. Só correm em pistas, em autódromos de primeiro mundo, autódromos de GPs, então isso é muito bom para o desenvolvimento delas, então na verdade a W Series abre uma porta que para muitas delas seria inviável pela questão financeira.


Só parar para pensar: de 500 pilotos no brasileiro de Kart, sendo 10 ou 15 meninas, se desses 500 meninos que estão ali, talvez nenhum deles vai chegar na F1 porque a chance de chegar na F1 é muito difícil, envolve muita coisa, imagina quão mais difícil é para uma mulher chegar lá pela falta, justamente, de mulheres competindo. Repito, aumentou muito de uns anos para cá, mas ainda assim, proporcionalmente, ainda acaba sendo um número baixo. Então as chances acabam sendo muito pequenas se for pensar dessa forma. A W Series chegou para dar uma encurtada nesse caminho e eu acho que é uma ideia muito boa. Lógico que custa muito dinheiro para o pessoal que está envolvido, mas o pessoal com certeza planejou bem isso então é uma categoria que tem uma boa visibilidade, tem bastante patrocínio, tem transmissão ao vivo para o mundo inteiro... Com certeza é algo que vem se sustentando e já está no terceiro ano.


Foto: André Pedralli

Temos por exemplo a Jamie Chadwick, atual campeã da W Series e piloto da academia da Williams, porém nunca teve uma oportunidade que desse a entender que "engataria de vez" o seu caminho para a Fórmula 1. Você acha que ainda vai demorar muito para termos já seja ela, ou outra mulher no palco da F1?


Então, a Jamie já está envolvida com a Williams e tem também acho que a Jessica Hawkins envolvida com a Aston Martin, mas não é um programa de desenvolvimento. Eu acho que de pouco em pouco as equipes de Fórmula 1 estão abrindo o olho para esse mercado do público feminino, que no fim das contas não deixa de ser um negócio - tudo na F1 é um negócio -, então esse piloto aqui, esse piloto lá, entrou na categoria porque levou um caminhão de dinheiro. Tudo gira em torno do negócio.


Eu acho que não deve demorar muito para uma menina chegar, mas ela tem que ser disparadamente a melhor das melhores meninas, até porque se for ver, tem 20 assentos na F1 então o máximo que seria ocupado por uma menina eu acho que seria um e sendo algo maravilhosamente bom, dois. Ter dois mulheres na categoria ao mesmo tempo seria algo meio impensável há anos atrás, mas eu não acho que seja impossível. Tendo uma já seria bem bacana e eu espero que esse dia não esteja longe de chegar, de acontecer, acho que quem deve estar mais perto disso é a Jamie, só que ela ainda tem que passar por categorias como a Fórmula 3 e a Fórmula 2, ou pelo menos a F2.


Tem que ter um certo destaque nessa categoria, ter patrocínios e tudo mais para conseguir chegar no assento de Fórmula 1. Além de que, é claro, acho que vai contar muito a visibilidade que isso trará para a equipe em questão ou para o patrocinador em questão por ter uma mulher na maior categoria. Isso com certeza será algo muito atrativo falando no bussiness, falando no negócio. Mas lógico, acima de tudo ela terá que ser uma piloto boa, porque não adianta colocar alguma que ainda não seja a melhor só pelo fato de mídia e tudo mais, e vai para a pista e toma 5/10s em uma volta. Não dá nem para competir assim, fica perigoso. Tem que ser alguém que vá ser competitiva e não digo ganhar, porque sabemos que ganhar é meia dúzia na F1 que tem essa condição por questão de carro, equipe e tudo mais, mas para estar na Fórmula 1 ser competitiva acho que tem alguns nomes aí para o futuro. Mas, com certeza a Jamie Chadwick é a principal. Só espero que se for para ser ela não demore muito porque a idade vai chegando, o tempo vai passando, mas estão surgindo cada vez mais pilotos mulheres novas, jovens, surgindo dessa geração do Kart. Tem o programa da FIA Raising Stars que está sempre apoiando várias meninas do Kart, tem a Ferrari que está colocando as meninas na academia de pilotos desde cedo, então as equipes de F1 estão olhando para isso.


Eu tenho uma informação de bastidores de que a Red Bull também está interessada em colocar uma menina no time de pilotos juniores. Isso ainda não se concretizou eu acho, mas enfim, é algo que eu sei de bastidores que eles estão já de olho em alguém, então não acho que vai demorar para que todas as equipes tenham alguma menina no time de pilotos juniores. O que pode não significar nada, mas pode significar também.


Do seu ponto de vista, o que poderia ser feito de forma diferente para abrir ainda mais portas para as meninas nesse meio?


Essa é uma boa pergunta porque assim, como não é um esporte que tem essa diferença entre homem e mulher, todo mundo compete na mesma categoria, com o mesmo tipo de carro, é uma boa pergunta. Eu acho que assim, o que a W Series fez é algo diferente para abrir mais portas porque é algo exclusivo então isso, digamos assim, de certa forma incentiva mais as meninas a quererem isso e o melhor é que é subsidiado, é tudo pago, então não esbarra mais na questão financeira.


Eu já participei, quando era piloto, de programas de seleção para conseguir bolsas, descontos para correr, onde você tinha que se comprometer a assinar um contrato que caso você fosse selecionado teria que ter pelo menos uma quantia mínima de x mil reais disponíveis para pagar e eu não tinha essa quantia. Então assim, que programa de seleção é esse onde na verdade não interessa se você é bom ou ruim, o que interessa é se você tem o dinheiro para colocar caso seja selecionado, né?


Então a W Series não tem esse problema, mas eu sinceramente não sei o que mais daria para ser feito. Talvez algo similar a W Series, mas no Kart. Não digo uma categoria exclusiva, mas às vezes um apoio maior de campeonatos, organizadores e fabricantes no Kart, de se reunirem para criar algo assim com custo menor para incentivar as meninas, para ter mais meninas, não sei. Acho que algo dessa forma. Mulher que gosta do esporte tem, mulher que gosta de pilotar tem, só que repito, ainda é um número menor que o dos homens e, como é caro, se temos 100 mulheres talvez 20 terão a condição de fazer e as outras não terão, porque é um esporte caro. A grande maioria dos casos acaba esbarrando na parte financeira, então se tiver um suporte financeiro acho que será a melhor coisa.


Continuando na linha da W Series, sempre existiu o preconceito de falar "você dirige que nem mulher", quando a pessoa dirige mal, ou comete algum erro no trânsito. Coloquemos a seguinte situação: Quando você entra em um circuito - falando como público e não como engenheiro - tem uma corrida acontecendo e você não sabe basicamente nada de automobilismo e muito menos que há uma categoria feminina. Há algum indício, algum detalhe, que te faça dizer "essa é uma mulher dirigindo ou "esse é um homem dirigindo"? Tem alguma diferença entre um e outro?


Não, é a mesma coisa. Não conseguimos ter essa distinção, digamos assim. Apenas, como você falou, se a pessoa sabe que é uma mulher ou um homem. Mas só vendo o carro na pista, competindo, não dá para dizer "ah, é uma mulher" ou "ah, é um homem". Muitas vezes na rua acontece isso de ver alguém dirigindo mal na rua e dizer "deve ser uma mulher dirigindo, certeza" e muitas vezes não é, é um homem.


Mas ali, na pista de corrida, todas elas - na W Series - tem experiência prévia, principalmente no Kart. Muitas delas também tem experiência prévia em outras categorias de Fórmula ou de carro, e nessas experiências prévias elas competiam no meio dos meninos, no meio dos homens. Então não tem essa diferença. Tem o exemplo da Bruna Tomaselli, conheço ela desde a época do Kart, já corremos juntos na categoria e até mesmo de F4 no Brasil. Ela sempre foi boa, sempre foi rápida, de igual para igual. Não tem essa diferença quando está dentro da pista. O carro, o Kart, o regulamento, é tudo igual para todos.


Agora sim perguntando desde o lado de engenheiro, como é a tua rotina em um final de semana de corrida?


Primeiramente, sempre chegamos pelo menos com um dia inteiro de antecedência. Vou dar o exemplo dessa semana agora, que estarei em Paul Ricard com a etapa da W Series que ocorre junto com o GP de Fórmula 1, Fórmula 2. Na quarta-feira é o dia em que viajamos não para o autódromo, mas para a região, então já chegamos na quarta. Porém, só vamos para o autódromo na quinta logo cedo e quinta é o dia inteiro lá no autódromo, que é a preparação. Então fazemos reunião com as pilotos, a questão da parte de performance para alinhar com elas, em questão de pista fazemos o track walk para ver o traçado, qual marcha usa, ponto de frenagem, enfim. Em relação a como pilotar na pista utilizamos os dados históricos que temos daquela pista, assistimos vídeos, fazemos análises e estudos dos dados do carro.


Então quinta-feira é o dia de preparação no caso do final de semana da W Series. No track walk estudamos vídeos, análise de dados, o piloto ou a piloto de corrida sabe interpretar os dados então para eles é muito importante ver qual é o formato da freada, o "shape" do gráfico de frenagem para cada curva, qual é a pressão do freio que utiliza, como é a forma que solta o pedal de freio, que alivia o pedal de freio, a forma que volta no pedal do acelerador, como que é o volante - se é muito agressivo, se vira mais, se vira menos. No vídeo vemos muito o traçado, onde tem que começar a virar para fazer a curva, qual zebra pega, qual zebra não pega, enfim. Esse é nosso principal trabalho de race engineer (engenheiro de pista) voltado a performance do piloto. Temos também nosso trabalho voltado a performance do carro onde fazemos todos os checklists que são precisos para saber se o carro está funcionando bem, os mecânicos também tem um checklist extenso, então tudo isso já deixamos certo no dia que antecede o primeiro treino livre.


Aí na sexta-feira, nesse formato da W Series, tem o treino livre de manhã e o treino classsificatório a tarde, no caso final do dia nesses GPs aqui do verão da Europa. Como tem sol até 21h/22h eles estão nos colocando para classificar 18h/18h30 ou 19h, mas ainda tem bastante luz natural.


Já no sábado é a corrida, então basicamente é um final de semana curto da W Series, até poderia ter pelo menos uma sessão a mais de treino ou uma corrida mais. Acho que um treino mais ou uma corrida mais seria o ideal, o perfeito. Seria o mínimo, mas seria bom, mais que isso não precisa e menos que isso - que é o caso atual - é pouco, é curto. Isso acaba até limitando um pouco o desenvolvimento das pilotos porque elas tem pouco tempo de pista.


É lógico que em outras categorias o nosso envolvimento é muito maior porque a categoria tem muito mais tempo de pista como é o caso da Fórmula Regional. Temos mais tempo, mais treinos, ainda assim é limitado, mas temos bem mais que o que a W Series faz e podemos também mexer no carro muito mais do que na W. Então, nosso envolvimento tem que ser muito maior, é muito mais presente. Os fins de semana duram mais, normalmente viajamos na segunda ou na terça e voltamos só no domingo a noite ou na outra segunda. É basicamente a semana inteira fora. O trabalho com os pilotos começa bem antes disso, começa no simulador. Eles vem até a equipe, temos a estrutura do simulador aqui e toda a preparação do carro, setup, inicia na oficina da equipe. Então para nós começa bem antes.


Claro que na W Series também isso acontece, só que o meu trabalho já não entra nisso porque na W Series a maioria do pessoal é freelancer, então trabalhamos da forma que eu citei. Mas tem uma equipe por trás que já foram para lá - França - no domingo. Então eles ficam de domingo a domingo , domingo a segunda, montando toda a estrutura, preparando todos os carros, a parte mecânica, a parte da oficina e as pilotos que querem no caso treinar com o simulador elas fazem por conta própria ou fazem com o coach delas, mas não diretamente com a gente. Conosco é mais na pista mesmo.


Foto: André Pedralli

E como funciona por exemplo a coleta de dados e informações para planejar as estratégias de cada piloto para cada corrida?


A Arden por exemplo tem um computador, digamos assim, que registra todos os parâmetros que estão acontecendo com o carro. O carro é cheio de sensores, igual que um carro de rua. Tem sensor de velocidade, de temperatura, de água. O carro de corrida também tem e muito mais. Todos esses sensores estão sendo gravados e quando o carro chega no box fazemos o download de todos esses dados, tem também a parte do vídeo e isso tudo é utilizado para fazer a análise de pilotagem comparando piloto A com piloto B, o piloto mais rápido com o piloto com o qual estamos trabalhando, enfim.


A parte de questão de estratégia no Fórmula não tem muito. No caso nosso, na Fórmula Regional e na W Series, não tem muito essa questão de estratégia porque só tem um composto de pneu, a regra é igual para todos, não existe pit-stop na corrida e a única estratégia que existe, digamos assim, é na classificação, onde temos meia hora e dois jogos de pneu diferentes. Então, temos que pensar quantas voltas daremos com o primeiro jogo, quantas com o segundo... É basicamente isso no quesito estratégia.


Continuando no ambiente de trabalho, qual foi o maior perrengue que voce já passou?


Eu acho que o "maior" não tem nada de especial. Acho que todo mundo que trabalha com automobilismo sabe como funciona. Podem ser muitas horas de trabalho e poucas horas de sono, então acho que isso é o que normalmente acontece. Dormir pouco, ficar sem almoçar ou as vezes ficar sem café da manhã é algo comum de acontecer.


Basicamente, se o carro tem um problema ou se sofre um acidente e no outro dia de manhã tem corrida, tem treino, tem classificação, a equipe tem que fazer de tudo para entregar o carro pronto para o piloto. Muitas vezes isso significa virar a noite trabalhando para dar tempo. Não tem isso de "ah, deu 18h, deu o meu horário e amanhã as 8h estou de volta", não existe isso. No automobilismo é normal passarmos 12/13h por dia no autódromo, se passa menos que isso é porque tem alguma coisa errada. Se chover está lá para tomar chuva, as vezes fica ensopado, as vezes está muito frio. Aqui na Europa principalmente uma hora está quente, na outra está frio. Você vai de manhã para o autódromo e está um grau, zero grau, gelo no para-brisa do carro então assim, não digo que sejam perrengues, mas são situações adversas que passamos.


Que dicas você daria para as pessoas que querem começar a trabalhar nesse meio de engenharia, especificamente? Em relação a currículo, processos seletivos, cursos que ajudam a se inserir ainda mais nesse ramo... Como funciona essa parte?


Como qualquer outra profissão tem que estudar, se especializar na área e buscar experiência. Acho que o mais importante é a experiência, principalmente se tratando no caso do automobilismo. Tem muita gente que se forma, vem para a Inglaterra, faz o master, mas que na verdade nunca pisou em um autódromo na vida.


Acho que é dedicação, buscar ter experiência, ir atrás de cursos, conhecimentos, fazer cursos voltados a área do automobilismo... Tem alguns que acontecem no Brasil com uma certa frequência, anualmente ou cada dois anos. Vir para fora se tiver oportunidade para buscar esse tipo de curso também é bom, ajuda. Não só para a Inglaterra, mas sei que tem também na Espanha, Itália, Alemanha.


A Inglaterra, é claro, o "centro" do automobilismo. A grande maioria das equipes de F1 estão aqui, o automobilismo inglês é muito tradicional. As principais equipes de categoria de base historicamente são inglesas, de certa forma a Fórmula 1 é inglesa, começou aqui, a primeira corrida foi em Silverstone.


Nesse raio que eu moro estão basicamente todas as equipes do grid, com exceção da Alfa Romeo, Ferrari e AlphaTauri. Aqui é o centro de tudo, então se tiver a chance de vir para a Inglaterra perfeito, mas se não, dá para estudar, se especializar e trabalhar aí no Brasil. Não tem muito segredo, tem que estudar, ir atrás e acho que a melhor dica é tentar conseguir experiência logo cedo. Quanto antes melhor.


Para concluirmos, quais são os objetivos a curto e longo prazo e o que você falaria para aqueles que querem seguir essa carreira, mas talvez não tem alguém que lhes incentive e, muito pelo contrário, só tem pessoas que lhes dizem que é uma perda de tempo? Desde o seu lugar, que pode servir de inspiração para muitas pessoas, o que diria?


Acho que nada é perda de tempo se é o que você gosta, o que você sonha em trabalhar. Independente da área, se é como mecânico, mecânica, jornalista, engenheiro, engenheira, etc, tem que começar, tem que ter um pontapé inicial. Ninguém começa grande, todo mundo começa pequeno, todo mundo começa por baixo. Se alguém hoje é chefe de equipe, anos atrás foi engenheiro, mecânico, piloto... Tudo leva tempo para chegar em qualquer lugar e em qualquer profissão.


Em relação ao futuro, nem eu sei direito. Eu tenho vontade de voltar ao Brasil, ficar perto da minha família e planejo que isso algum dia aconteça, mas isso pode ser em breve, pode ser que leve mais alguns anos, ainda não sei. Só tempo e as oportunidades dirão isso.


Não vejo a minha área de atuação mudando, continuará sendo engenharia de pista. O meu próximo passo aqui na Europa naturalmente seria saltar para uma Fórmula 3, esse seria o meu desejo em um prazo de um ou dois anos talvez. Da mesma forma em que trabalhei na Fórmula 4 e fui para a Fórmula Regional Europeia, meu próximo passo seria um Fórmula 3, na minha opinião. Aí não sabemos, pode ser que continue trabalhando aqui, trabalhe no Brasil, não sei ainda o que vai acontecer exatamente.


Foto: André Pedralli

Nesta entrevista, André nos permitiu conhecer um pouco mais não só do lado profissional, do lado de engenheiro de pista, como também nos deu a oportunidade de conhecer o André que se apaixonou cedo pelo Kart, pelo automobilismo, ainda criança em Cascavel. Nos permitiu conhecer alguém persistente, esforçado, dedicado. Alguém que batalhou, confiou e nunca parou de acreditar e, acima de tudo, não deixou de ir atrás do que sonhava e almejava. Nos permitiu conhecer um lado que vai além das pistas.


Obrigada, André Pedralli! Foi um prazer.










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